Discurso a um Amigo
Conto
9/2/20263 min read
Discurso a um Amigo
Aquele olhar, escondido pelas bochechas, ainda arqueadas em um sorriso, na época parecia tão genuíno, não imaginava que poderia mascarar tão bem os olhos, esses que fincavam sobre nós o julgamento de si, do não-pertencimento ao ambiente, ao rir mimetizava alegria, com sons pausados, separados pelas silabas há-há-há, a risada como lapso destoante de um humor constante de busca por algo que pudesse lhe preencher.
Na forma de agir nas situações mais simples, distinguia-se. Sempre tão pragmático, realizava tarefas como ninguém, mas nunca sem antes se perguntar redundantemente do sentido delas, não conseguia entender a mecanização dos seus afazeres cotidianos, como continuar fazendo o que se faz sem ao menos tentar procurar os fundamentos das ações e intenções impostas pela rotina.
Os pensamentos esgotavam-no, nessa tentativa de achar uma essência para cada movimento simples do dia a dia, partia de uma suposição simples, se tomava água por causa da sede e sentia sede porque no corpo faltava-lhe água, e esse ponto de escassez chegava a tal ponto, porque resultava do esquecimento de tomar devido ao trabalho e afazeres, refletia — se o mundo me atinge até nas minhas necessidades básicas, também pode afligir nas formas simbólicas do meu existir?
Sentia-se somente um rasgo no tecido da lógica, uma simples fenda, um caminho para que as determinadas funções e indeterminadas sensações passarem, e naquele pequeno instante que o fato perpassava seu entre, podia se identificar, ali na transitoriedade do sentir, podia estabelecer relações com os objetos físicos e metafísicos, ali naquele pequeno momento, podia vislumbrar o presente, sem estar nas memórias ou nas expectativas, o mundo o atingia.
Sua partida pegou a todos desprevenidos, como poderia o bom ser dos contratos sociais ter desistido assim? Sem mais nem menos, sem demonstrar uma vez que poderia estar sofrendo? Essa pergunta que nos ecoa é válida, e a resposta que tiro hoje, é que falhamos em interpretar o maior sintoma demonstrado, aquele que levávamos como traço primordial de sua personalidade, o de não dizer o futuro. imerso nas histórias que contava, causos que o aconteciam, buscava nas memórias, que se repetiam, as favoritas e prontas a serem utilizadas como analogias, paralelos, diferenciações e toda e qualquer forma de retirar dali uma razão simultânea dos acontecimentos. Perguntávamos — como ele conseguia guardar tanta informação? — dizia que havia nascido com uma maldição: a de se lembrar de tudo.
Trago então uma memória, que assim como acontecia com ele, se repete. Quando éramos crianças no sítio dos meus avós, a noite ao montarmos uma pequena fogueira com gravetos, somente nós dois acordados, olhando as estrelas que brilhavam como nunca, indaguei — O que está pensando? e pressentido o romper do silêncio, respondeu — Já reparou no vazio que existe entre uma estrela e outra?
Aquela pergunta, sua formulação, sempre me questionei o termo que ele usou: Vazio, por que não espaço? Ou tamanho? Por que Vazio? E a conclusão que chego hoje, prestigiando sua vida, é que nunca se tratou de medidas, ali em frente ao fogo com os olhos para o céu escuro-luminoso, ele fez um paralelo com o conhecimento humano, suas características e perspectivas. As estrelas apesar de parecerem formar constelações cada uma separada, mostrava uma distância entre si de milhões de anos-luz, cada uma das ideias apesar de se parecerem progressivas com a história, elas surgiam de um contexto individual que naquele instante não só respondiam ou faziam à pergunta certa para o descortinamento de algo, mas tomavam o sentido para uma pessoa.
Nessa trama viveu seus anos, utilizou de cada experiencia, seja ela material ou não, para a busca das suas conclusões — essas que não tinha medo de dizer que eram passageiras como ele — e por meio do seu lembrar, fincava o fundamento do devir.
Fez hoje, com nós aqui reunidos, o que sempre foi o seu modo de se relacionar, o tentar reconciliar sua individualidade com os outros que ele admirava e prezava, vivendo assim seu ímpeto de tentar se ver no instante, o entrar da linha no buraco da agulha, o se construir e destruir, o estar junto a si e a nós, o mais verdadeiro possível quanto ao seu prazo de validade dúbio, que ao deixar aqui sua marca, sintetizo na frase — provar sua finitude em carne não anulava o infinito das memórias daqueles que passariam a pensar nele a seu modo e levando consigo todos os sedimentos de sua forma.

