Pedra e Musgo

Conto

9/1/20263 min read

Pedra e Musgo

Na experiência de refletir, me deparei com um lastro, e nele tal qual musgo limoso, grudava sobre o que eu via de sólido, esse organismo que se fez junto a mim, só foi percebido quando me estatelei no limite da reflexão, de onde mais poderia tirar a racionalização da minha consciência segundo minha história?

Ali parada estava eu, a pedra, coberta pelo ser esverdeado que buscava a sobrevivência, ocupando o espaço-tempo que antes era somente meu, podia enxergar suas conexões, seu comprimento acima da minha cabeça e até onde me cobria, mudando minha forma, me mantendo em um úmido recorrente, mostrando-me como eu estava à mercê das intempéries que dele me condicionavam, entretanto conforme o senhor de todas as mudanças e língua universal dos entes, o tempo me fez perceber o vento, o qual foi o mensageiro de seus feitos inevitáveis, trazia consigo passageiros que vieram de diversos lugares e se juntavam a mim — numa estratégia parecida com a do musgo, no qual tomava a minha existência, só que dessa vez diferente, não da forma que se encortina, mas na qual me mostra, não somente a situação em que o musgo me acometia mas como a minha própria composição fragmentaria, oriunda do translado rotineiro, do sopro temporal dos sedimentos, que se assimilavam na minha constituição física.

Essa brisa que passou de arrasto pela minha estrutura, abriram-se fendas dedutivas das próprias perspectivas do meu conhecimento, os estados e determinações que formavam, formam e podem formar meu aparato físico, esse fluir de grãos quase imperceptíveis da erosão e sedimentação da minha realidade.

Intuía minha inação de pedra, percebia-me dura, apática e imóvel, o musgo era o único ponto de vista, a mudança que ocorria nas minhas estruturas eram frutos do seu movimento e tomado assim como minha representação de causa última, era fonte organizadora da minha existência, mas o vento, ele sim descortinou-me. Abri assim a percepção da construção inicial da minha consciência-lançada-no-mundo, percebendo os conjuntos das matérias orgânicas e inorgânicas, seus nomes e maneiras de se formar, o que também as arranjavam, voltando as suas coisas mesmas, suas cadeias de átomos e estruturas que as condicionam também, seus próprios musgos e sedimentos, que ali me compunham.

Nessa virada percebi-me de outras formas, vi em mim na situação presente, o que o passado havia formado e no modo de pensar que poderia advir daqueles fragmentos que agora chamava de Eu, o musgo aos poucos se tornou fruto de um passado condicionante que não necessariamente se tornava menos importante, mas sim algo que faz parte de mim biograficamente, me percebia não só mais à mercê dele, mas do movimento de fixar-me e deixar-me, a experiencia da transitoriedade do Eu, o caminho fixo da consciência de uma pedra sob os efeitos do meio.

Com a nova percepção formada, apreendi minha vivência de maneira elaborada como as de uma costura que se forma em um longo tecido, ali nas linhas entremeadas compunham meu Eu, porém nesse espaço consta um pequeno rasgo — que em termos estruturais de pedra, uma rachadura — percebo através dela um nada originário, um vazio completo, ao olhar por entre ela, um súbito horror me acometeu, aquele entre, possível vê-la, possível tocá-la e compreender o porquê estava ali, mas não vislumbrava ela mesma no sentido que deveria, como um depósito livre para o acoplamento de sedimentos vindouros, ali na falta de significação vejo o motor imóvel da possibilidade de transformação dos horizontes, foi na percepção do meu desgaste que alcancei a visão de um todo, a rachadura não como falta, mas como transitoriedade da minha existência quanto as perspectivas dadas pelo mundo. Intuía sobre a minha inação de pedra. O solo em que me estabeleço, o ar que me envolve, o musgo que me vela e o tempo que me torna.

Newton, 1795, William Blake.