Uma consulta
Conto
9/1/20266 min read
Uma consulta
— Olá como está?
Por muito tempo não via propósito em falar de mim, terapia muito menos, não sou importante, não faço nada de importante e muito menos passei por coisas importantes, mesmo assim algumas feridas se abriram e eu gostaria de saber como. A todo momento me sentia “inautêntico” em tudo que fazia, fosse estudando, trabalhando ou fazendo sexo, nada era meu, tudo pelo outro — Não! Não sou altruísta, confesso já tentei ser, mas não me preenche em nada, fiz e faço as coisas pelos outros por medo — Medo de que? Não sei — sempre que tive oportunidade me isolei.
— Olá, aquela voz ainda tem me perseguido, está ficando chata.
As pessoas não costumam compartilhar o vazio, e é muito raro as que tentam ser compreendidas, não que seja um sentimento difícil de se revelar, o que bem provável não seja; não é essa a questão, mas sim como traduzir esse “sentimento” que constantemente é preenchido, de maneira tão fácil, com o que mais se abunda ultimamente: informação constante, o tipo rápido e supérfluo que a modernidade nos trouxe, onde a cabeça entra em um constante vício, esse estofo está errado? Quem me dera poder aproveitar deste tipo de gozo momentâneo do preencher, desde que me tornei dentro do jogo da vida, da vida real e petrificante, a que se submete ao Outro, qualquer tipo de fuga instantânea com prazo de validade ínfimo, se torna um pedaço do paraíso, seja em alguns goles de vinho, na masturbação constante, no cigarro ou mesmo na gloriosa erva, ainda sim todas supérfluas.
— O que ela tem dito?
A voz, nada mais que eu, uma performance do meu cérebro para me manter longe de qualquer adversidade. Já me percebi pensando em fuga com uma garota nua em cima de mim, dando risadas com os amigos, ouvindo uma música que me causava uma certa satisfação — satisfação, sim, prazer? Não, não sei o que é isso, prazer parece algo mais pecaminoso que a forma tão superficial em que encontro satisfação, e quando digo pecaminoso, seria da forma mais alta de se sentir mais humano, de se sentir de alguma forma mais ser, mais culpado — culpa de que necessariamente? Sentir-se deprimido.
— Tem mostrado coisas.
A voz surge como imagens, uma sinestesia, é incrível como ela aparece de formas tão diferentes, quando me divido em voz e “Eu” a parte que pensa de forma narrada tende a querer manter as coisas sob o controle, a rotina, o trabalho e os relacionamentos, a outra com imagens e sensações, como a visão de uma forca em determinado espaço da casa, uma rodovia movimentada, o gosto metálico de um revólver ou o pressionar da ponta dele na cabeça, os flashs aumentam e diminuem conforme qualquer tipo de escolha se aproxima, e como não escolher é uma escolha, eles são recorrentes, é como se a ansiedade me limitasse tanto, que não consigo mais agir, e tudo é como se fosse uma dualidade de sabores, um doce-amargo.
— As mesmas imagens?
Certa vez imaginei o seguinte cenário, uma sala pequena com diversas portas, onde todas ao mesmo tempo se fechavam, a sala se escurecia e somente 2 holofotes surgiam para evidenciar que ali há Eu e um duplo, o primeiro o que aparenta o sofrimento, está sentado, uma angústia uma impotência sem fim, entretanto o segundo que está de pé é o mártir, ele também sente a mesma coisa, porém, essa figura sempre justifica o sentir da tristeza, da solidão e do vazio, uma vontade avassaladora me acomete de se tornar ele, penso que talvez seja por isso que eu não consiga transpor a minha doença.
— Sim, eu e o mártir.
Engraçado como quando tento falar desses episódios mentais, eles parecem sempre tão estáticos e fixos, e quando acontecem é como se todos os fatos descritos tivessem um movimento de adentrar mais a fundo cada área, é como se eu estivesse sonhando acordado e pegasse cada representação e “traduzisse”, entretanto, ela segue sendo pensamentos acordados, a dificuldade de descrever talvez seja porque não é uma alucinação, na qual deixo de estar presente e visualizo no mundo físico as formas, é uma dualidade conjunta, o corpo e o mental, ao mesmo tempo que sinto o sofrimento físico o metafísico acompanha, ao mesmo tempo que estou inteiramente dentro das cenas, consigo ver a parede, sua cor, sua opacidade, identificando cada parte de sua textura, ela me lembra, você sofre, você ainda vive, e isso é como me colocar num limiar da realidade, a física me condiciona e a mental me revela.
— E por que ser o mártir?
Sempre me foi difícil a existência, se sentir pequeno e novo a tudo, imagino que os seres que não compreendem a fatídica experiencia de existir consciente, existem e redundantemente vivem, vivem de forma em que sentem a presença, de forma natural; Eu existo errado, porque a presença mesmo que de forma instintiva nos animais, comparado a busca incessante de um “lugar-meu”, é mais do que o suficiente ou é simplesmente a medida certa para a vivência real, me vem à mente a generalização da minha espécie e a conclusão que estamos fadados a perseguir este habitat-não-natural até que o prazo vença a nossa natureza-real.
— Morrer pela causa... talvez? só que a causa seria a existência.
Não sou, apenas fui e talvez serei, sempre vivi no passado ou no futuro, o presente é danificado, sou um viajante do tempo mental a procura de um “Eu” que tenta nas memórias, hábitos que moldariam o presente e a angústia e na busca das ideias de realizações que possam me criar expectativas, que me tornem fincado no futuro do presente — sei que pode parecer complexo de primeira, e bastante pedante a maneira que penso, mas paciência, é apenas a minha doença, tento entender o caminho que minha infortuna condição psicológica me mantém — nascer, existir, dialética, essencialidade e morte, palavras-chaves que me rondam como etapas da vida. Nascemos sem base nenhuma do que somos, é preciso que paradigmas, culturas e costumes nos moldem para viver, assim aprendemos de formas sistemáticas maneiras de nos portar, andar e reagir.
— Morrer para existir?
Pensar a existência é um exercício a ociosidade, pois não a como contemplar e contemplar-se durante uma vida atarefada, é preciso flanar, é preciso que não tenha limite de tempo para que possa encostar a cabeça na grama, olhar o céu e sentir-se como parte de um todo, tornar-se um com o pinicar do gramado, avistar o alto e além mundo, fazer-me um verdadeiro pária, o pária da vida, da vida que se existe e pressupõe eventos e causalidades, não me sujeito as tramas dela, prefiro me sentar em cima do ócio, sentir, olhar, escutar e por fim tentar estar na completa apatia — estou dentro da minha cabeça, existo e penso.
— E por que não? Viver como estou hoje, já é estar morto, talvez a ordem dos fatores altere o resultado.
A contradição da liberdade do pensar, sem ter as condições necessárias para isso, ter que ser forçado a nascer de forma tão prematura no mundo e se tornar alienado ou ao menos consciente da sua própria impotência de ser e fazer-se, há sempre rachaduras nas obras e construções do indivíduo, o sistema fruto das nossas próprias contradições nos faz querer atender necessidades sintéticas. Como podemos existir com os pré-conceitos estabelecidos de um mundo existente?
— E qual resultado você espera?
O que eu estou de fato procurando? Eu penso em paz e serenidade, e talvez eu nem consiga viver sem essa parte do caos, essa parte que me é tão interessante — animais controladores que criam maneiras abstratas de poder — resistência a essa conduta é estar sempre na ansiedade do que vai acontecer, prevendo, revendo e não apenas vivendo e sim controlando — a única parte que aparentemente nos torna “diferentes” dentre si, essas nuances que somente nós como espécie reconhecemos um no outro, algo incorpóreo, travestido de cultura, é um costume de todos nós, apesar de diferentes, movimentos iguais.
— Algum diferente do que estou tendo.
E como podemos prever as razões do surgimento dessas condições? sem ferir a identidade transitória do indivíduo, como compreender a razão do ser sem que ele se sinta artificial em meio ao laboratório do conhecimento de si — por que tanta complexidade para nossos decompositores? Ética, moral, costume, tudo de maneira tão diferente, e tudo feito a dois, tudo em conjunto e de forma paradoxalmente unilateral, é tão evidente a contradição do mundo, que simplesmente toda tentativa de individuação esbarra com o pensamento do “outro”, não importa o quão sozinho esteja seu pensar nunca é somente você, onde achar a própria emancipação no meio de tanto barulho exterior? talvez essa seja a nossa natureza, a natureza da nossa razão, um diálogo constante com a interrogação do pertencer.

